Pedro Vieira: “O INEGI é uma escola soberba para os jovens engenheiros”

24-01-2018
À conversa com Pedro Vieira

É atualmente diretor de Inovação & Desenvolvimento (I&D) da Amtrol-Alfa, a maior produtora europeia e maior exportadora do mundo de garrafas de gás transportáveis. Antes de integrar a equipa desta empresa vimaranense da indústria metalomecânica, esteve 6 anos no INEGI, parte do tempo dedicado de corpo e alma à criação da conhecida garrafa de gás Pluma, um projeto de I&D liderado à data pela Amtrol-Alfa, que passou depois a industrializá-la.

Já lá vão mais de 10 anos desde o surgimento da Pluma, um produto que veio revolucionar o mercado das garrafas de gás. Como foi estar na linha da frente deste projeto, na altura ainda do lado do INEGI?

Começando pelo contexto, a necessidade de desenvolver a Pluma parte da Galp, algures em 2002, depois de identificar que o mercado precisava de uma garrafa leve. Na altura só havia dois fabricantes no mundo que faziam garrafas em compósitos que eram a Ragasco e a COmposite Scandinávia (uma garrafa em duas partes que nunca foi muito bem recebida no mercado), ambas na Noruega. A Ragasco só fazia um tipo de garrafa e não dava margem a alterações, por isso, a Galp lançou o desafio à Amtrol-Alfa, que já lhes fornecia todas as garrafas de aço, para criarem uma nova garrafa, juntamente com os parceiros que considerassem adequados.

Então a Amtrol-Alfa constituiu uma equipa com a Galp, a Simoldes Plásticos, o INEGI e o PIEP – Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros, e do lado dos fabricantes a Saint Gobain para matérias primas e a Bolenz & Shäfer para equipamentos de enrolamento filamentar. Coube à Amtrol-Alfa por todos a trabalhar em conjunto: empresa, cliente, institutos e fornecedores.

Não há de ter sido tarefa fácil...

Não foi... Até porque nem sempre as coisas corriam bem. Foram muitas noites mal dormidas e muitas dores de cabeça, tanto no INEGI como depois na Amtrol-Alfa. Mas durante o desenvolvimento da Pluma, no INEGI, também aprendi muito. O Professor Torres Marques, com a sua calma característica, ensinou-me que na investigação aprendemos muito mais quando as coisas correm mal, porque temos de saber o porquê e encontrar uma solução e nesse processo há muita aprendizagem.

Fizemos grande parte do projeto no INEGI. Toda a parte experimental e de desenvolvimento não só do processo do enrolamento, mas também da melhoria do produto e mesmo os testes de vaporização, de fogo e os protótipos. Lembro-me que a primeira Pluma que fizemos demorava 10 minutos a enrolar e agora enrolamos em 4 minutos. Aliás, quando fizemos o primeiro teste ainda demorava mais tempo, estava pesada e cara, por isso foi preciso otimizá-la. Na altura tinha mais meio quilo do que tem hoje e demorava o dobro do tempo na produção. Houve uma evolução muito grande que continuou a ser feita no INEGI, desde a produção da primeira pré-série.

É quando surge a industrialização da Pluma que é convidado para criar a nova linha de produção na Amtrol-Alfa?

Depois da Pluma, a Amtrol-Alfa pediu ao INEGI um engenheiro jovem que quisesse dar o salto para a indústria e foi assim que fui lá parar. Era preciso construir uma nova linha de produção, com novas máquinas, novos processos, tudo. Fui gerir uma fábrica totalmente nova e aprendi a trabalhar com as máquinas antes dos operadores, o que é uma vantagem. Ainda consigo trabalhar com qualquer máquina da linha de produção.

A nossa garrafa de baixa pressão é fabricada com um compósito termoplástico, no caso o polipropileno, o que faz com que tenhamos a única garrafa de compósito no mercado totalmente reciclável e o que levou, na altura, a que o processo de fabrico fosse novo. Somos provavelmente o maior consumidor nacional de compósitos. Gastamos, por dia, 1 tonelada de fibra de vidro com polipropileno e 1 tonelada de fibra de carbono com resina epoxy. É um grande volume de compósitos diário. E continuamos preocupados em inovar.

Mantem o INEGI em mente quando precisa de um parceiro de inovação?

Sempre que posso recorro ao INEGI e só vou a outros sítios se não houver capacidade de resposta. Isto não é só por razões sentimentais, mas também porque acho que tem muita competência e muita matéria prima, de pessoas e equipamentos, para responder às solicitações. Eu entrego o trabalho e sei que vem bem feito e que se houver dúvidas serão rapidamente resolvidas. Temos uma meta nos objetivos da empresa que consiste em lançar um produto novo todos os anos, seja uma nova garrafa ou simplesmente uma nova asa. Parece fácil, mas não é. Às vezes os dias e as noites todas do ano não são suficientes. Por isso, precisamos de nos rodear dos melhores parceiros e para mim não há dúvida de que o INEGI tem muito para oferecer.

Acompanhou o INEGI como investigador e depois como cliente. Como analisa esta perspetiva bipartida?

Eu entrei no INEGI e ainda não tinha acabado o curso. Foi o meu primeiro emprego, por isso teve um papel fundamental na minha aprendizagem e evolução. Trago muito boas recordações... Havia muito espírito de equipa e entreajuda. Passávamos muitas horas juntos e acabávamos por ser mesmo uma família. O INEGI permitiu-me fazer muita investigação. Nós pegávamos numa ideia e transformávamos num produto. Isso para um engenheiro é das coisas mais fantásticas que há. Acredito que para os jovens engenheiros o INEGI é uma escola soberba porque obriga a aplicar a teoria continuamente (é preciso estar sempre a estudar), abre portas em várias indústrias, potencia um networking incrível de conhecimentos, pessoas e matérias, e prepara rapidamente para a indústria.

Na relação com a indústria, como cliente, acho que tanto o INEGI como outros institutos portugueses de transferência tecnológica têm de se mostrar mais às empresas, de lhes mostrar quais são as suas competências, porque há empresas em Portugal que, por desconhecimento, acabam por ir procurar fora. Na minha opinião, para se adequar às necessidades da indústria, o INEGI deve contemplar 3 tipos de investigação: a fundamental, que só vai ser usada daqui a 10 anos, a que se adapta a projetos de 2/3 anos, que tem o seu ritmo próprio, e aquela SOS, que é a que as indústrias precisam e que serve para resolver ou detetar um problema rapidamente. Por seu turno, as indústrias também devem mudar para um modelo em que passam a ter pessoas dedicadas à inovação e ao desenvolvimento. É preciso que haja gente disponível para procurar as oportunidades que existem no mercado.

Considera que o I&D ainda não ocupa um lugar de destaque no planeamento estratégico da indústria portuguesa?

Em Portugal, por norma, as empresas não têm uma estrutura de inovação e desenvolvimento como devia existir. Na Amtrol-Alfa nós criamo-la. Eu sou o diretor de inovação e desenvolvimento e as minhas funções passam única e exclusivamente por pensar à frente. Temos a maior fábrica do mundo a produzir garrafas (local físico), exportamos para mais de 100 países e produzimos reservatórios de pressão, para baixa e alta pressão, a um ritmo de 25 mil por dia. Queremos não só manter, como melhorar estes números e acreditamos que para isso é preciso inovar.

As empresas portuguesas têm de perceber que é preciso haver pessoas dedicadas à inovação e dinheiro para gastar em inovação, acreditando que, no geral, poderá haver retorno. Se reconhecerem estes dois fatores, facilmente as indústrias se encaminham para os centros tecnológicos que, por sua vez, devem estar preparados com capacidade de resposta. Mais do que inovar, os institutos devem mostrar às empresas que são capazes de ensinar a fazer modelos de inovação. Devem mostrar às empresas que elas só conseguem investir no futuro se definirem objetivos de inovação fortes e que são capazes de ensiná-las a definir esses objetivos. Para avançar em inovação e desenvolvimento é sempre preciso conjugar um grupo de atores que envolvem as empresas das indústrias, os centros tecnológicos e universidades e os fornecedores. Só assim é possível desenvolver produtos que dão resposta às necessidades dos mercados.

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